Andrea

ANDREA  

Era sua chance perfeita, e nada poderia dar errado. Um único escorregão e sabia que estaria de castigo pelo resto do dia e teria um encontro nada agradável com a vara. Nas pontas dos pés descalços, entrou na cozinha sem fazer barulho algum, escondendo-se sob mesas e atrás de prateleiras de panelas, até alcançar as gavetas. A cozinheira estava de costas para ele; o rapaz e a ajudante haviam saído para fazem compras. Escondia-se do lado do fogão, segurando o riso, sorrindo e mordendo o lábio. Colocou o dedo sobre a boca e sussurrou um leve ‘shhh’ para o enorme besouro que levava entre os dedos, para que ele também não fizesse nem um único som que pudesse estragar todo seu perfeito planejamento. Era um besouro obediente.

Abriu a gaveta lentamente, milímetro por milímetro. Seu coração acelerava sempre que a madeira rangia, mas ele felizmente parecia ser o único a notar. Ergueu o braço, esticando-se o máximo que conseguia, silencioso como o ar, confiante, sabendo que ninguém o via… e deixou que seu fiel companheiro entrasse meio aos talheres, enfiando-se mais para ao fundo da gaveta sobre suas patas escuras e seguras. Com a primeira parte de sua missão comprida, Andrea fechou a gaveta com a mesma cautela que a havia aberto. Virou os olhos para a cozinheira. Aparentemente, ela estava distraída demais terminando o almoço. Fora o momento perfeito. Quase deslizando pelo chão de pedra da cozinha, ele voltou pelo mesmo caminho, escondendo-se sob a mesa da sala de jantar. Agora tudo dependia do besouro.

Ouviu os passos da cozinheira pela cozinha, o tilintar de panelas, e finalmente, o rangido da madeira… e o grito de terror soou-lhe como música para seus ouvidos. Seu dia estava ganho, sua conquista realizada. Não conseguiu mais segurar o riso, e correu o mais rápido que pode quando a cozinheira se deu conta do culpado daquilo.

-Patrãozinho Andrea!! – berrava ela, e Andrea por um momento sentiu pena do que teria sido de seu leal companheiro besouro. Mas não conseguia tirar o sorriso do rosto. Saiu pela porta da frente, aberta coincidentemente por alguém que entrava. Rolou por debaixo das pernas sem sequer ver quem poderia ser, e aventurou-se quintal afora, correndo direto pros estábulos. Ria descompassado, sem parar um instante, correndo o mais rápido que podia, cada vez mais satisfeito quando mais sua fuga durasse. Entrou por uma tabua solta da parede que já conhecia há muito tempo, pois seu pai já havia dado ordens para que os serviçais trancassem as portas dos estábulos depois de ele se esconder em meio aos cavalos dezenas de vezes. Mas o pai não era capaz de pará-lo. Assim como o besouro, os cavalos eram seus companheiros. Andrea não iria deixar de visitá-los, e sabia que eles jamais iriam traí-lo. Entrando direto no espaço de um enorme garanhão cinzento, o qual chamava de Tempestade, enfiou-se meio ao feno que o alimentava e, novamente, sussurrou para que ele ficasse em silêncio. Tempestade soltou um relincho de cumplicidade, e voltou a prestar atenção em sua água. Andrea afagou-lhe o focinho com a pequena mão, e escondeu-se o mais fundo que conseguiu.

Levou tanto tempo até que alguém conseguisse encontrá-lo que Andrea acabara adormecendo em meio ao feno. Acordou assustando-se com Tempestade tentando comer seu cabelo, batendo o focinho sobre sua cabeça, e fora ao empurrá-lo que percebeu que não estavam sozinhos. Esfregou os olhos cor de mel ao ver as pernas que se aproximavam dele, o corpo que agachava-se para afagar-lhe sobre a cabeça, o sorriso do qual ele tanto gostava. Seus lábios eram vermelhos, a cor de seu batom favorito, e seus cabelos grandes cachos castanho escuros, quase negros. Afagava-o com uma mão magra, branca, que e ergueu-o em seu colo, depositando um beijo sobre sua bochecha.

-Que belo esconderijo encontrou para quando resolve aprontar, Andrea… – sorriu ela, limpando e arrumando-lhe os cabelos. O sorriso de Andrea abriu-se de uma orelha a outra, e ele abraçou-a com força.
-Mamãe! – enfiou o rosto sobre seus seios, rindo divertido. Sabia que se apenas ela o havia encontrado, era porque estava cada vez melhor na arte de ser esconder dos empregados da casa… e, conseqüentemente, do pai. – Eu não aprontei. Foi o besouro que entrou sozinho na gaveta…

-Ah, então foi um besouro? – riu ela, saindo com ele do estábulo apos deixá-lo despedir-se de Tempestade. – Me pergunto quem deu a ele a idéia de assustar as cozinheiras do seu pai.
Andrea levou as mãos sobre o rosto sardento, rindo.
-Besouros não conseguem falar, mamãe…
-E nem abrir gavetas, não é mesmo? – sorriu-lhe ela, levando-o para a casa em que ambos moravam. Uma casa pouco afastada do grande casarão da família, menor, mas ainda aconchegante, a casa onde parte dos empregados moravam. Andrea tinha seu quarto na casa principal, mas preferia mil vezes dividir a cama com a mãe a ficar sozinho em um dos aposentos daquele grande casarão. E quando saía pela porta e encontrava o pai no corredor…

-Mas abrir gavetas não é aprontar! – riu mais, exibindo os pequenos dentes de criança com um buraco entre dois deles, resultado de um dente de leite. – Posso dormir com você hoje, mamãe?
-Está com medo de levar bronca do seu pai? – riu ela.
-Não… – O papai não gosta de mim. – Quero dormir com você.
Ela passou os dedos por seus cabelos castanhos.
-Claro, querido. Claro… – disse ela, com um leve tom entristecido na voz.
-A mamãe trabalha hoje? – perguntou o pequeno, estranhando a falta do sorriso. – Eu fico com a mamãe até ela ir… – Já havia há muito aprendido que jamais poderia acompanhá-la em seu trabalho.
Sua mãe sorriu. Ele adorava vê-la sorrir.
-Então eu durmo com você até eu ir, e você me espera dormindo na minha cama, que tal? – entrou pela porta dos fundos da casa, dirigindo-se ao pequeno quarto que ocupava na casa, seus móveis consistindo de uma cama, uma pequena penteadeira e um baú de madeira para suas roupas.

-Tá bom! – exclamou Andrea, satisfeito, acomodando-se sobre seu colo quando ela sentou sobre a cama. Abraçou-a e manteve-se em silêncio, aproveitando o carinho que ganhava. Pouco depois, ela deu-lhe o que comer para o jantar, algo que ela mesma preparara na pequena cozinha da casa menor e ele a ajudara a cozinhar. Não levou mais do que alguns minutos depois do jantar até que Andrea começasse a sentir sono, e ela levou-lhe para a cama, deitando-se com ele. Cantou-lhe a mesma canção que cantava toda a noite, a canção sobre a criança que dormia nos braços da mãe… e era o que Andrea sempre fazia. Adormecia em seus braços, segurando com a mãozinha em seu vestido, rezando silenciosamente para que ela ficasse sempre ao seu lado.

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Фёдор

ФЁДОР  

Sua mão sempre ia automaticamente até o curativo em sua bochecha. Ele coçava, e por isso sua mãe havia coberto-o todo com um pedaço de gaze para que Fjodor não mexesse e acabasse abrindo-o de novo, correndo para ela com os olhos molhados. Sempre que tocava a gaze, lembrava-se que não devia coçar e baixava a mão, frustrado. O jantar havia acabado de ser servido, e um pequeno peixe prateado olhava-o de seu prato, quente e pronto para ser consumido. A carne é boa, mas as espinhas machucam.

-Está sem fome, Fjodor? – perguntou o pai, que já se ocupava com o seu, virando os olhos cinzentos para ele.
-Não, senhor… – ele balançou a cabeça, e pegou seus talheres para começar a tirar a pele. Puxou a carne com o maior cuidado que conseguia, prendendo a respiração enquanto as espinhas deslizavam para fora, uma por uma… até uma quebrar-se e ficar no meio da carne. Segurou um suspiro, e continuou seu processo, evitando sempre encontrar os olhos do pai. A mãe sentava-se ao seu lado, e inclinou-se para ele.

-Eu ajudo… – sorriu ela, procurando a espinha perdida.
Fora o pai quem soltou um sonoro suspiro.
-O garoto sabe comer um peixe sozinho, Karyna. – O garoto tem que se virar sem a mãe, foi o que Fjodor ouviu ele dizer. A mãe não se importou.
-Pode se machucar se engolir uma espinha, vou só tirá-la. Aqui, pronto. – ela sorriu e passou os dedos pelos cabelos do garoto. Fjodor sorriu para ela, mas sabia que o pai não ficava nada satisfeito. Mais de uma vez ouviu-os discutindo como ela ‘deveria parar de tratá-lo como um bebê’, pois ‘o rapaz já tinha quase doze anos’. Ela respondia que ele era ainda uma criança, e seu único filho. E ele dizia como o garoto era medroso e que ela não poderia mantê-lo debaixo da asa por muito tempo. Ele terá que aprender a se virar sozinho. Essas palavras sempre repetiam-se na cabeça de Fjodor, e ele sempre tentava afastá-las com a proteção de suas cobertas. Talvez eu nunca seja um adulto, mesmo.

Comeu seu peixe vagarosamente, mastigando e engolindo, servindo-se de batatas e folhas verdes. Ao terminar, limpou-se como havia aprendido e empurrou o prato com os talheres. Por mais medroso que fosse, tinha um pouco de orgulho por ter facilidade em aprender as coisas. Exceto como ser menos covarde. O pensamento lhe feria o já abatido ego que possuía.

-Lev e Pyotr ainda estão atrás da ladra. – iniciou ele, em tom severo. – Como está o machucado?
-Não dói, senhor. – Ainda dói e pulsa, mas não vou dizer-lhe isso.
-Bom. Ainda não a encontraram, mas conseguiram arrancar alguma coisa da língua do povo. É a filha ladra de um bêbado desempregado. – soltou um riso que mais pareceu um suspiro.

Fjodor reuniu toda sua coragem, que não era muita.
-Pai… – começou ele.
-Hm?
-Não seria melhor deixar isso para lá? – as refeições em casa fizeram-lhe lembrar dos rostos magros que o olharam, e pensar no quanto aquelas pessoas estariam passando fome. O dinheiro que haviam roubado não iria sequer fazer falta. Se a garota o usasse para comprar comida, ele até poderia esquecer a queda e a ferida, ainda mais para não ter de arriscar-se a encontrá-la novamente.

O pai olhou-o em um momento de silêncio solene.
-Deixar para lá. – pressionou os dedos nas têmporas. – Tinha apenas dinheiro naquela carteira, Fjodor?
Como pude me esquecer disso.

-Não… – os documentos, mesmo que não todos, haviam sido levados junto.
-E o que tinha lá é importante e tem o seu nome, não tem?
-Tem… – Fjodor suspirou. Como podia ser tão estúpido?
-Portanto, não há discussão. – ele tocou o sino para que os empregados entrassem para recolher a comida. Fjodor levantou-se, desanimado.
-Não vou querer sobremesa… – disse ele, e tomou seu caminho até a porta, saindo do salão de jantar e indo para as escadas que levavam ao seu quarto.

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Rubbish (Дамаран)

Дамаран
RUBBISH 

Aquela seria a última vez em sua vida que ousaria fazer aquilo. Algumas vezes, a mulher da casa o mandava ao mercado com algumas moedas para que ele levasse a comida para a casa e ela fizesse a refeição para o marido e a filha. Como dificilmente sobrava comida suficiente para ele, resolvera pegar um pouco da sacola antes de chegar na casa para se alimentar – mas a mulher notava que havia algo faltando, e prontamente chamava o esposo ou ela mesma tratava de dar a ele a punição que merecia. Como sempre, não o tocavam com as mãos nuas – davam-lhe chutes em seu estômago até que colocasse para fora o que havia roubado. E não levava muito – após os três primeiros, Lixinho não agüentava e vomitava o que havia e o que não havia comido. Abraçando a própria barriga e segurando o choro, ouvia a mulher exclamar em repulsa, berrando que ele iria limpar aquilo nem que tivesse de usar as próprias roupas em trapos. Levava algum tempo para ele conseguir levantar-se e fazer o que lhe era mandado, mas as ameaças sempre serviam como uma terrível forma de incentivo. Felizmente, desta vez não seria algo demorado – fora aos poucos diminuindo a quantidade de comida que roubava, então o estrago não havia sido tanto. E ao menos, havia uma vantagem – seu estômago doeria por, ao menos, uns dois dias – e seriam dois dias durante os quais não iria sentir tanta fome.

O cheiro que vinha do fogão, no entanto, era a parte mais difícil de agüentar. Não era um banquete e a comida não era especialmente apetitosa… mas era o que ele conhecia, e era o que ele desejava. Sempre guardava dentro de si a pequena esperança de, algum dia, ganhar um pouco daquilo que a família comia, por mais que soubesse o quão impossível seria. Ficava com os restos: partes sem gosto de repolhos e alfaces, a parte de dentro de um tomate, uma tigela de sopa rala, e quando tinha sorte, um pouco de carne queimada. Graças a isso, era a criança mais magra da vila, por mais miserável que o lugar fosse… e sobrevivia apenas graças à ajuda de Irina e, talvez, uma grande força de vontade que não sabia ao certo de onde vinha.

Não era todos os dias; ela apenas conseguia dar-lhe comida escondido algumas vezes pela semana, quando a mãe saia por algum motivo, ou enquanto dormia. Pegava algo que sabia que não faria falta, ou vezes ela mesma trabalhava para alguém na cidade e guardava algumas moedas para alimentar-lhe. Ela sempre lhe havia dito que era um garoto forte. Vivia terrivelmente, agüentava o intenso frio do inverno, conseguia passar tempos sem comer e não podia chamar a água que jogavam nele de banho… mas ainda assim, ele resistia. Mesmo quando apanhava, resistia e os machucados, apesar de deixarem marcas, não causavam nada mais sério do que deveriam. Talvez fosse isso que frustrasse tanto o dono da casa. Talvez ele tivesse uma esperança de que se Lixinho morresse de uma vez e não precisasse mais mantê-lo ali. Mas ele parecia apreciar tanto poder espancar-lhe sem que o garoto pudesse reagir… Lixinho nunca havia tentado entender. Mas era o que ele conhecia.

Engatinhou com a barriga dolorida até seu canto em meio a seus trapos, e ali ficou. Tinha que pensar em outras coisas até a dor ir embora. Mas não sabia bem no que pensar. Talvez no trem que via pela janela, talvez na comida que Irina poderia lhe dar uma próxima vez. Talvez, em um dia, conhecer algo diferente daquilo. Não se lembrava bem se já havia sido diferente.

Talvez sim. Suas primeiras memórias eram vermelho, negro, vermelho e sua cama de trapos na cozinha. Naquela época, a cama de trapos era mais limpa, lembrava-se. No entanto, não sabia ao certo o que pensar das mais antigas. Eram apenas cores. Cores, impressões, e um forte cheiro de ferro e de fumaça.

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Владилена

ВЛАДИЛЕНА  

Folheava o livro de contos pela quinta, sexta, sétima vez. Nunca se cansava de olhar as figuras, ver belas princesas vestidas em seda e jóias, que sempre encontravam seu amor no final das histórias e viviam felizes, apaixonadas e belas, para sempre. Não existiam cavaleiros nem dragões, bruxas nem monstros, mas amor e casais apaixonados, sim. Disso ela tinha certeza, e sabia que um dia encontraria aquele homem a quem amaria demais, com quem iria querer viver para sempre, e que a chamasse de a mais bela das mulheres.

Era uma coisinha graciosa, sempre ouviu dizerem-lhe. Tinha cabelos dourados que desciam pelos seus ombros em caracóis, e grandes olhos que não eram nem azuis, nem verdes; mas sim algo entre ambos. Sua pele era rosada e macia, e todos elogiavam seu sorriso doce, sincero, amável. Seu sorriso sincero. Sabia que gostariam mais dela se ela sorrisse, sempre, quando cumprimentava e quando despedia-se de todos, quando entrava na escolhinha, quando entrava na academia que desde a mais tenra idade já freqüentava. Era educada, comportava-se como a garotinha perfeita, e tinha a aparência de uma boneca. Tinha de mostrar perfeição; era o mínimo que poderia ser esperado dela, vinda de uma das famílias mais poderosas dentre o governo soviético. Aos três anos, ela não sabia muito bem o porquê de tudo aquilo… mas nunca sequer ousou pensar em contrariar os pais. Nunca iria envergonhar a família, os pais, os dois irmãos mais velhos. Vladilena era a caçula… e um belo enfeite nas fotos de família.

Amava a vida de princesa que tinha. Adorava ter todos a mimando, a elogiando, dando tudo que ela pudesse querer apenas por capricho. Amava seu quarto grande, apenas seu, com seus brinquedos por todos os lados, nas prateleiras, no chão, sobre sua enorme cama de travesseiros e cobertores macios, seu armário cheios de roupas de várias cores, sua banheira de água quentinha todos os dias. Tudo o que precisava era o príncipe para fazer-lhe companhia… pois não achava que ia, algum dia, sair de sua bela casa. Ela soltava uma risadinha sempre que pensava nisso. Ainda era jovem demais para pensar em casar-se de verdade, então distraía-se com suas imagens de contos de fada por tardes e tardes a fio. Às vezes, sua mãe lia uma das histórias para ela antes de dormir, pois ainda não havia alcançado a idade para ir à escolinha para aprender a ler e escrever, e ela adorava. Caía no sono com um sorriso nos lábios, abraçada em um de seus bichos de pelúcia, e sua mãe a cobria para que ficasse acalentada por toda a noite.

A parte do dia que mais gostava, no entanto, eram aqueles pequenos momentos em que a mãe se ocupava com hóspedes e ela era deixada com a babá. Era fácil escapar. Fácil demais. No primeiro momento de distração, Vladilena escapulia pela porta do quarto escorregando pelos degraus da escada e correndo direto para o quintal da enorme mansão onde morava. Gostava de sua vida de princesa, mas não de sua vida de boneca. Cansava-se de ser um objeto de exibição sem vontade própria, e sentia-se viva quando fazia o que queria e o que sabia contrariar a mãe. Tirava os enfeites dos cabelos, largando-os na escada; deixava os sapatos no caminho para correr melhor sem eles; e quando conseguia se livrar de uma camada dos elaborados vestidos, ainda melhor. Corria até os cães de guarda que sabia que não lhe fariam mal, e brincava com eles até que a capturassem novamente e a levassem para o banho, exausta e com um sorriso no rosto gracioso. Os cachos embaraçavam-se, mas ela sabia que logo iriam penteá-la e poderia novamente importar-se com um pouco de vaidade. A roupa seria lavada e consertada, todo o resto guardado em seu devido lugar, e ela se transformaria de volta na princesinha da mansão. E era essa duplicidade, essa possibilidade de poder sair do costume ou do esperado que a divertia.

Havia conseguido brincar com seus cães por alguns bons minutos. Aproveitava a água quente da banheira e cantarolava baixinho uma das músicas que escutara em sua academia de dança, brincando com as bolhas na banheira enquanto a babá escovava-lhe os cabelos. Por mais que Vladilena sempre fugisse dela, havia se apegado à moça; ela era simples, a tratava bem, e sabia brincar e ler suas histórias de princesas de um jeito agradável. Não eram raras as ocasiões em que a pequena começava a conversar com ela sobre amor e príncipes, ouvindo atentamente aos seus conselhos.

-Irisha, acha que vou me casar com um homem bonito?
A babá lhe sorria, e balançava a cabeça afirmativamente.
-Certamente. Seus pais irão querer que se case, e muitos homens se apaixonarão por você quando crescer.
-Muitos?
-Muitos. Vai ser uma bela mulher, e poderá escolher com quem vai se casar, Lena.
-Se forem muitos, como vou achar meu príncipe no meio deles? Não vai ser difícil?
-Não… vai saber quem ele é, com certeza. Vai ser aquele que a fizer se sentir feliz, estranha, ansiosa… vai saber.

O sorriso de Vladilena abriu-se ainda mais, e ela soltou uma risadinha infantil, levando as mãos sobre a boca.
-E já se sentiu assim, Irisha? Tem um príncipe? – Vladilena já lhe havia perguntado a mesma coisa antes, e a babá sempre desviava-se da resposta.
-Isso é um segredo. – sorria ela, enxaguando os cabelos da pequena e embrulhando-a numa toalha. Vladilena sentia enorme curiosidade por tal segredo, mas também achava divertido que o segredo se mantivesse… secreto.
-Quero crescer e conhecer meu príncipe. – Vladilena inocentemente, vestida em novas roupas limpas enquanto Irisha arrumava seus cabelos.
-Quando crescer, vai querer ser jovem de novo… – riu a babá, amarrando a fita em seus perfeitos cachos dourados.
-Não vou. Sei que vou ser feliz com ele.

Irisha não podia evitar sorrir.
-Espero que seja, Lena. Realmente desejo que seja. – e com um beijo em sua testa, deixava-a voltar para seus livros e seu mundo dos sonhos que, para a pequena Vladilena, se tornaria realidade.

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Катерина

КАТЕРИНА  

Dedilhou por dentro do couro, contando quanto poderia haver ali dentro. Sorriu ao concluir que era mais do que o suficiente, orgulhosa por ter derrubado sozinha aquele fidalguinho covarde que, àquele ponto, deveria estar chorando abraçado às saias de seda da mãe enquanto contava para o pai como uma ladra o havia atacado. Igualdade uma ova, pensou ela. Os nobres haviam caído, mas esses filhinhos de bandidos enriquecidos e de políticos gorduchos ainda podiam ser encontrados aqui e ali. E como serviam de alvos fáceis para qualquer um que tivesse os pés rápidos e conhecesse todos os esconderijos do bairro…

Prendeu a respiração para escutar se havia alguém a seguindo, e sorriu sozinha ao ter certeza de que havia escapado de seu perseguidor. Enfiou a carteira roubada no bolso por debaixo da saia, ajeitou uma mecha dos cheios caracóis vermelhos por detrás da orelha, e virou a esquina do beco na ponta dos pés, tirando os chinelos para não fazer barulho. Depois, caminhou com a maior naturalidade do mundo até enfiar-se num casarão de madeira e escalar a estreita escada que levava ao pequeno aposento de um único cômodo que chamava de casa. O cubículo, coberto por um papel de parede amarelo desgastado, era consumido totalmente por apenas uma cama estreita, um sofá velho e uma mesa de madeira. Num canto, ainda havia restos de entulho como pedaços de madeira e grandes tijolos de argila que o pai nunca havia se incomodado em jogar fora. A janela precisava de alguma força para ser aberta, e o banheiro… eram obrigados a usar o banho e a vala comum, e descer e subir de noite, no escuro, arriscando quebrar uma perna nas escadas apenas com o chamado da natureza. Katerina sempre se assegurava de aliviar-se antes de dormir, e já conhecia os horários de banho de cada um – o que não era tão difícil, já que nem todos os inquilinos do casarão pareciam banhar-se regularmente. Nem mesmo seu próprio pai.

E ali estava ele, deitado de barriga para cima na cama de lençóis sujos, roncando sem nem se incomodar de acordar com sua chegada. Ela fitou-o curtamente, suspirou e sentou-se no sofá que lhe servia de cama, vendo o que havia para comer sobre a mesa. Não era muito. Ela desconfiava que aquele pão estava mais do que um pouco embolorado, e a sopa de repolho rala que a proprietária lhes dava já estava fria. Coçou a nuca por debaixo dos embaraçados cabelos vermelho fogo e resolveu tomá-la mesmo assim, deixando o pão de lado desconfiada de que ele poderia fazer-lhe muito mal. Roçou a carteira roubada com os dedos, olhando de soslaio para o pai, que ainda dormia. Não o avisei que iria procurar dinheiro, pensou. Mas se ela chegasse com comida fresca… ele saberia, e iria perguntar-lhe porque havia escondido o roubo. Antigamente, ele não gostava nada dela ter desenvolvido esse hábito; agora, não apenas não se importava, como perguntava-lhe sobre seu sucesso. E gasta tudo nessa maldita pilha de garrafas. Era um hábito que só havia piorado depois da esposa abandoná-lo quando ela era ainda uma criança de cinco anos, ao ponto dele esquecer-se até que ela precisava comer.

Katerina suspirou, tomando a última colherada de sopa, e levantou-se. Pensou em pedir para esconder a comida na despensa da proprietária, mas não confiava nela, e muito menos nos inquilinos. Achou melhor comprar apenas algo para encher a barriga até o dia seguinte, e talvez esconder um pouco de dinheiro nas roupas de baixo. Um pouco entregaria para o pai, para que ele ainda a achasse útil para alguma coisa, por mais que lhe doesse ver tudo aquilo que poderia virar comida, um aluguel ou até uma roupa nova indo embora de maneira tão… estúpida. Desceu os degraus até portão e saiu, verificando novamente se não havia nenhuma testemunha de seu pequeno crime por perto, e andou assoviando rua abaixo.

Sua presa havia sido melhor do que imaginou que seria. Era a carteira mais gorducha que havia roubado havia muito tempo, e tudo o que precisou fazer foi derrubar um garotinho covarde e correr como sempre correu. Era leve, rápida e de pernas longas; alguns diziam que corria como uma gata, e ela se orgulhava bastante disso. Seus pés eram seguros e as mãos, firmes; além disso, dificilmente havia alguém que conhecesse as passagens entre as casas melhor do que ela. Esfregou o nariz sardento com satisfação ao pensar nisso, e sorriu. Vou comer presunto, hoje. Presunto, queijo e um belo pedaço de pão branco e novo. O pensamento fez sua boca salivar, e pensou que aquele estava sendo um bom dia.

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Alexis

ALEXIS  

Apenas brincando no quintal de sua casa, fazia descobertas que o deixavam distraído por horas a fio. Foi o primeiro verão no qual ele correu sozinho sobre a grama, sustentado por suas pequenas pernas de criança, perseguindo esquilos até que eles subissem nas árvores e sumissem por entre as folhas. Alexis os olhava se moverem com uma fascinação que fazia sua mãe, que o observava da cadeira do quintal, sorrir e levantar-se para ir até ele para afagar-lhe os cabelos quase brancos que caiam sobre seu rosto. Ele então agarrava suas saias para que ela o abraçasse e o pegasse no colo, o que ela completava com um beijo em seu rosto. Aquela era sua felicidade máxima, a coisa que ele mais gostava em seus dias, com a pessoa que era a mais importante de todas para ele. Esquecia-se completamente dos esquilos e do que estava fazendo no quintal, apenas para poder aproveitar o calor e o carinho. 

A semelhança entre mãe e filho era notável; os cabelos dela eram de um louro tão claro quanto o dele, e os olhos, a cor do mais claro azul celeste. Eles tinham o mesmo olhar, os mesmo lábios, a mesma pele rosada, e estavam sempre juntos. Alexis nunca fora de se misturar com outras crianças, e detestava apenas pensar em ser deixado em uma dessas creches onde o caos corria solto e o barulho não cessava nunca. Seu alívio era a mãe trabalhar apenas durante a manhã, enquanto ele ainda dormia… e se acordasse, apenas mantinha-se na cama até que ela voltasse. Raramente tentava usar o banheiro sozinho, por receio do que poderia acontecer, e nem ousava descer as escadas. Era uma criança comportada, tranqüila; um garoto bonito, saudável, inteligente. Ele adorava ouvir tais elogios. Nunca fora inclinado à bagunças, ou a melecar-se com comida, ou a constantemente exigir doces e brinquedos novos. Gostava de ficar em seu quarto, na sala da casa, na cozinha, onde pudesse acompanhar a mãe. Não a atrapalhava nem exigia sua constante atenção; apenas apreciava ficar perto. Vez ou outra recebiam alguma visita e, caso houvesse alguma criança próxima de sua idade, pediam que Alexis brincasse junto desta. Não era algo que lhe proporcionava grande empolgação, mas sabia que a mãe ficaria feliz se o fizesse. Não costumava ser um grande desafio. O pior que poderia acontecer era, se a outra criança fosse do tipo barulhenta, ela mesma chatear-se com o jeito de brincar de Alexis -muitas vezes lento ou silencioso demais – ou este simplesmente cansar-se e pedir para que a mãe o levasse para a cama, fingindo sono. Não insistiria em seu modo de brincar se poderia simplesmente desviar dos aborrecimentos sem ter de lidar com outros garotos e ir fazer suas coisas sozinho.

Algumas vezes divertia-se ao rabiscar folhas de papel que a mãe lhe entregava, apesar de nunca ter se esforçado demais para aprender tal arte. Gostava de seus pequenos blocos de madeira, com os quais podia montar casas e cidades; tinha também pequenos carrinhos em miniatura que havia ganhado de presente de seu pai, que havia passado os brinquedos de sua família para o pequeno. Não possuía uma grande variedade de coisas, mas era, para ele, o suficiente para divertir-se sozinho. Seu grande desejo, porém, voltava a sua mente sempre que saia com a mãe para onde quer que fosse.

Perto de sua casa, a caminho da cidade, passavam sempre pela vitrine de uma loja de brinquedos, onde um pequeno trem de fricção estava sempre a andar por seus trilhos. Aquilo fazia os grandes olhos azuis de Alexis brilharem com uma admiração incomum. Os trilhos eram montados sobre uma grande mesa de madeira que exibia todo o cenário em miniatura. O trem parava em pequenas estações de madeira pintadas, passava por pontes decoradas como se fossem de pedra, e até por pequenas cidades constituídas por apenas três ou quatro casas tão minuciosamente construídas, que se alguém olhasse o cenário agachando-se ao nível da mesa, podia perfeitamente pensar que aquilo tudo era real. O trem era de metal pintado, com um detalhamento e um brilho impressionantes. Todos os dias que saíam, Alexis pedia à mãe que o deixasse observar a vitrine apenas por alguns minutos.

Um dia havia visto uma criança e seu pai saindo da loja com uma caixa que tinha a foto daquele mesmo trem nela impressa. Sua curiosidade levou-o a perguntar para a mãe se poderiam levar um deles para casa e montá-lo em seu quarto… e esse foi o dia que entendeu que não poderia ‘comprar’ um daqueles, como a mãe lhe havia explicado.

-O trem custa muito dinheiro, querido. Seu pai trabalha muito, mas ainda não podemos te dar esse de presente… não agora…
-Dinheiro? – o conceito ainda lhe era estranho. – Onde acho dinheiro? Eu procuro!
A mãe sorriu-lhe tristemente e afagou seus cabelos.
-Não se pode achar, Alexis. Tem que trabalhar e ganhar…
-Eu trabalho. – respondeu ele, mesmo sem saber o que isso significava ao certo. – É o que o papai faz?
-Você ainda é pequeno para trabalhar. – ela sorriu e pegou-o no colo. – Assim que conseguirmos, vamos tentar te dar o trem de brinquedo, tá…?
Alexis esfregou as mãos e passou os curtos dedos pela franja.
-Tá… – respondeu cautelosamente, perguntando-se se havia feito algo errado em pedir o trem. Quis perguntar porque o outro garoto poderia tê-lo… mas talvez fosse melhor ficar calado e aproveitar o carinho da mãe.

Alguns dias depois, tomou coragem de perguntar ao pai, antes de dormir, porque precisavam de dinheiro para comprar o trem de brinquedo e como aquele garoto havia conseguido. A resposta fora um tanto difícil de compreender. O pai era um homem alto, de cabelos cor de areia que rareavam perto de sua testa. Tinha um rosto agradável, de lábios finos e nariz bem formado – talvez um tanto avantajado, mas em harmonia com o resto de sua face, e olhos azuis acinzentados que se apertavam quando ele sorria. Era carinhoso com o filho, mas muitas vezes tinha dificuldades em tentar explicar algo do mundo adulto para que uma criança de três anos pudesse entender… e acabava usando palavras que a Alexis não faziam muito sentido. Alexis havia reparado que entendia melhor quando a mãe lhe explicava, ou mesmo outra mulher que tivesse a paciência de lidar com uma criança. O pai, ainda, passava a maior parte do dia fora de casa. O que o pequeno havia conseguido entender era que o garoto que comprara o trem era ‘rico’, e o pai dele tinha um trabalho que lhe dava mais dinheiro.

-E o papai não ganha trabalho com mais dinheiro? – perguntou ele em toda sua inocência infantil.
-Não ainda. – sorriu-lhe e afagou-lhe a cabeça. –Mas quem sabe… – soltou um suspiro, enquanto Alexis o encarava, confuso. No entanto, a pequena fagulha de esperança pelo trem mantinha-se acesa simplesmente por não ter recebido uma recusa definitiva, e ele sorriu.

-Não precisa agora. Eu gosto de ver na loja. – respondeu, e abraçou o pai da forma que conseguia, em seguida escorregando de seu colo e sentando no chão com seus carrinhos antigos. Pouco depois, a mãe pegou-o no colo e levou-o para a cama enquanto ele quase dormia em seus braços, exausto. Como todas as noites, ela deu-lhe banho, afagou seus cabelos, cobriu-o e cantou para ele, carinhosamente, enquanto ele caía em seu pesado sono de criança.

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Фёдор

ФЁДОР  

Seus dedos estavam muito bem apertados no broche que segurava o manto sobre seus ombros. Ainda não fazia tanto frio, mas ele sentia os cabelos em sua nuca arrepiarem-se. Por mais que refletisse, não conseguia descobrir porque diabos havia sido levado ali, senão por alguma lição cruel que o pai queria lhe ensinar. Mas ele nem veio junto comigo, pensou. Como posso aprender alguma coisa sem nem saber quem poderia me ensinar? Estava tão longe do conforto de sua casa, de sua lareira quente e do colo macio de sua mãe, dos criados que o tratavam tão bem. Era tudo tão diferente.

Estava cercado de pessoas as quais nunca vira na vida, sentindo-se como um animal acuado. Elas o observavam, com olhos úmidos e cansados, e ele logo descobriu que se sentia menos apavorado se não olhasse diretamente para eles. Antes de sair, sua mãe havia dito que ele não precisava ter medo de nada, enquanto ele agarrava-se a suas saias, recusando-se a cruzar a porta. Mas era apenas um garoto de onze anos, e não tinha metade da bravura do pai, aquele homem tão grande, alentado e ríspido. No entanto, sua recusas e lágrimas de nada lhe adiantaram; fora quase arrastado casa afora, com a mãe sorrindo-lhe e acenando-lhe, e colocado dentro do carro a caminho de sabia-lá-onde.

Tinham aconselhado-o a vestir-se com roupas simples, e deixar todo o ouro em casa para que menos mal pudesse lhe acontecer. Aquilo quase o fez chorar de novo. Não por ter de sair com pouco dinheiro, mas sim por saber que, como bem desconfiava, algum mal iria certamente lhe acontecer. No entanto, descobrira que seus esforços para vestir-se informalmente de nada lhe haviam servido, e sua noção de simplicidade o havia traído. Vestiu-se com camisa e calças comuns, de algodão e linho, mas cobriu-se também com um casaco grosso de botões de prata que havia ganhado de presente de uma tia e um manto de pele de coelho negro e cinza, o qual dificilmente deixava em casa quando saía para um local seguro na companhia da família. Negro, cinza e branco servirão para não chamar a atenção, pensou. Mas havia se enganado tão miseravelmente que sentia-se mais estúpido do que envergonhado. As pessoas que o viam passar, acompanhado por apenas dois homens que ele mal conhecia, vestiam-se de algodão grosseiro gasto, com cobertores de lã manchados sobre seus magros ombros ou aquecendo-se por detrás de janelas de madeira que dificilmente afastavam completamente o frio.

Eles sabem que eu não sou daqui, e sabem que estou com medo. Crianças maltrapilhas corriam em volta deles, berrando-lhe por pedaços de pão e moedas, ou um pequeno botão de seu casaco. Ele encolheu-se dentro de seu manto e engoliu um soluço quando um deles se aproximou com um pedaço de pau e bateu-lhe sobre o ombro, mais numa brincadeira do que com a intenção de agredi-lo, algo que a Fjodor, no entanto, não pareceu nada divertido. Um dos homens que o acompanhava, um homem alto e esguio com os cabelos castanho avermelhados rareando no topo de sua cabeça, afastou a criança e mandou-a voltar para a casa. Depois, aproximou-se do garoto e dirigiu-lhe um olhar cuja intenção poderia até ser acalmá-lo, mas apenas o assustou ainda mais.

-Seu pai o mandou até aqui para ver com que tipo de coisa pode vir a trabalhar no futuro, Senhor. – disse ele, com severidade.
Meu pai mandou-me aqui para ver se eu podia me tornar um homem, e estou falhando vergonhosamente. Era a única explicação que poderia ter vindo à sua cabeça naquele instante, e ele soltou um suspiro longo, com uma expressão tristonha no rosto. Só tinha onze anos, ainda demoraria até acabar os estudos, e ele sempre acreditou que o pai viveria até além de seus cem anos, com a saúde de um touro. Talvez o próprio Fjodor morresse antes dele, se fosse obrigado a fazer esses passeios assustadores mais freqüentemente. Mas se ousasse dizer isso em voz alta, poderia ficar de castigo trancado em seu quarto por um dia inteiro. Agora, até preferiria.

-Quanto tempo até voltarmos para casa? – perguntou ele, tentando não soar desesperado como estava. Não tinha nada contra aquele homem, e já o via visto algumas vezes na companhia do pai; lembrava-se que o chamavam de Lev, ou algo parecido.
-Temos que andar por toda a vizinhança, Senhor.
Fjodor estremeceu.
-E quão grande é a vizinhança?
O homem respondeu-lhe com um encolher de ombros. Aqueles lugares eram cheios de ruelas, caminhos escondidos, casas construídas sobre casas e crescia a cada dia, quanto mais gente viesse para a cidade. Podiam muito bem não querer contar-lhe o tamanho que tinha, como podiam nem sequer saber ao certo. Isso não servia para acalmá-lo. Tentou encolher-se mais como se sentisse que estaria mais seguro daquela maneira, quase puxando o manto sobre a cabeça. Quando se assustava a noite, enfiar-se sob as cobertas ajudava; não custava tentar e ver se o manto o protegeria da mesma maneira.

No entanto, de repente, sentiu um empurrão em suas costas e um leve puxão em seu manto, e logo viu o chão se aproximar e bater contra seu rosto. O gosto de terra entrou em sua boca, terra suja, e ele soltou um soluço e um gemido baixos antes de apoiar-se nos braços para tentar se levantar. Lev e o outro gritavam para algo que ele via apenas como uma mancha verde e laranja, enquanto ele limpava a terra do rosto e cuspia, puxando a manga da camisa para limpar os olhos. Sabia que alguma coisa aconteceria. Tinha toda a certeza disso, e agora ali estava a prova. Um dos homens havia ido atrás de quem quer que o tivesse atacado, enquanto Lev ajudou-o a colocar-se de pé e tirar a sujeira de seu manto. Foi quando olhou as mãos e viu uma mancha vermelha em uma delas que sentiu a dor no lado esquerdo de seu rosto. Cortei-me, soube de imediato. Cortei-me em algo imundo, no chão sujo, e estou sangrando. Sempre que se machucava, a mãe o levava para lavar a ferida e fazer-lhe um curativo, que selava com um beijo leve. Mas a mãe não estava ali.

-O que houve? – perguntou ele, reunindo toda a força que possuía para não começar a chorar ali mesmo. – Quem me derrubou?
-Uma garota maltrapilha, senhor. Provavelmente quis roubá-lo, e como era rápida a cadela. Pyotr foi atrás dela, não se preocupe.
Roubar-me. O pensamento fê-lo colocar a mão no bolso do casaco, apenas para descobrir que a carteira havia sumido. Eu sabia que alguma coisa aconteceria.
-Ela me roubou mesmo. – soltou um suspiro longo. – Quero ir pra casa.
-Senhor…
-Quero ir pra casa. Por favor… – choramingou, baixando a cabeça. A ferida em seu rosto começava a latejar, e ele limpou-a futilmente com a manga da camisa. No entanto, sua súplica de nada adiantou.

-O Senhor seu pai nos deixou ordens.
E vocês têm medo dele tanto quanto eu, quis responder. Mas segurou a língua e suspirou, puxou o manto mais para cima e seguiu caminho a passos rápido. Quando mais rápido atravessarmos, mas cedo vou pra casa. Continuou andando, esfregando o rosto vez e outra, mesmo sabendo que não devia fazê-lo. Abaixou a cabeça durante o resto do caminho, protegendo-se por dentro de sua pele de coelho, não olhando para nada além do chão e para ninguém. Já havia sido ruim o suficiente mostrar-se tão amedrontado na frente de todos, ser derrubado por uma garota e roubado era simplesmente humilhante. Não iria nem querer saber o que o pai acharia disso. Pouco tempo depois, o homem chamado Pyotr voltou, sem sucesso.

-Era ligeira como uma rata. Se enfiou em algum buraco.
Pelo menos não fui o único que ela conseguiu tapear.
-Podemos ir pra casa? – perguntou ele mais uma vez, reunindo suas últimas esperanças. Foi, novamente, Lev quem deu-lhe a resposta.
-Apenas mais dez minutos, senhor.
E ele fez como prometido. Os últimos dez minutos se passaram em absoluto silêncio, com Fjodor não enxergando mais do que seus pés sobre a terra batida. Nunca havia se sentido tão aliviado de entrar em um carro e saber que seguiam para casa, e nunca havia cruzado a porta de sua casa tão rápido para correr até a mãe. Ela recebeu-o em seu quarto com um sorriso e ajoelhou-se para depositar-lhe um beijo na testa.
-Foi assustador, mamãe. Me derrubaram, e levaram a minha carteira, aquela carteira que tinha me dado… – dizia ele entre soluços e fungadas, com o nariz escorrendo e os olhos avermelhando. Dentro do quarto sentia poder chorar à vontade, quando o senhor seu pai não se encontrava.
-Tudo bem, Fjodor. – ela confortou-o com um cafuné em seus espessos cabelos negros. – Venha cá, vamos cuidar desse machucado, a carteira podemos comprar outra…

Ele concordou com a cabeça, enxugando as lágrimas, e deixou o manto e o casaco sobre a cama. Tudo o que queria era um banho quente, não sentir mais dor e poder recolher-se à sua cama quentinha, com a mãe a afagar-lhe a cabeça e cantando para ele, sem nunca mais ter de ir até aquele lugar assustador com suas garotas assustadoras.

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Rubbish (Дамаран)

Дамаран
RUBBISH 

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Costumava acordar com o barulho do trem de carga que passava a alguns metros de distância da casa, pelo momento do nascer do sol. Era o momento exato que o maquinista acionava o apito da chaminé, que se combinava com o som do ferro batendo em ferro das rodas e nos trilhos. Quando havia luz do sol o suficiente, ele prontamente se levantava, esfregando os olhos com as mãos, e, com a ajuda de um pequeno banco de madeira, apoiava-se na janela para ver a longa cobra de metal que espalhava fumaça pelo seu caminho. No entanto, durante o inverno, quando as horas de luz eram reduzidas, ele recusava-se a sair de debaixo dos panos velhos que lhe serviam de cobertor – a escuridão o assustava. Ele dormia no canto mais afastado da porta da cozinha daquela casa, pois era onde poderia proteger-se melhor do vento frio que entrava por debaixo da velha porta de madeira. Arrumava alguns panos no chão, para não ter de deitar-se sobre o ladrilho gélido, e procurava aquecer-se com os que sobravam – e, para sua sorte, panos velhos e rasgados eram o que não faltava naquele lugar. Esperava deitado no escuro, até ouvir os primeiros passos nas escadas ou ver algum raio de sol, para não ser pego adormecido. Não era bom se estivesse dormindo quando os donos da casa acordassem – por algum motivo, odiavam vê-lo descansar e, nas manhãs de mau humor, podia até apanhar do patrão da casa.

Ele tinha apenas três anos.

Naquela manhã de inverno, conseguira ficar deitado em seu pequeno casulo até o sol entrar pela janela. Equilibrando-se nas pernas curtas e mantendo um farrapo sobre os ombros, andou até a porta, e com a ajuda do mesmo banquinho conseguiu sair e ir até o poço do lado de fora para lavar o rosto. Jogar água fria em si quando o próprio ar estava abaixo de zero era um processo bastante sofrido; mas também corria o risco de ser maltratado se ficasse sujo demais. Secou-se com o mesmo pano que o aquecia e voltou para a casa, puxando a porta pelo largo vão entre a madeira e o chão para fechá-la, e amontoou seus cobertores no canto. Agora, precisava apenas ficar sentado sem fazer um único som, e não atrapalhar ninguém a menos que alguém lhe mandasse fazer alguma coisa. E foi o que ele fez.

Alguns minutos se passaram, e ouviu passos pesados descendo a escadaria. Ele sabia de quem eram esses passos. Encolheu-se em seu canto, apertando os olhos na esperança que apenas fosse ignorado. Mas soube que aquilo não ia acontecer naquele dia – soube no momento em que ouviu os passos entrarem na cozinha, acompanhados de um rosnado de raiva e nojo.
-Lixinho.

Encolheu-se ainda mais, mas não emitiu um único som. Não ousava responder com um movimento ou uma palavra, muito menos defender-se. Não tinha como defender-se. Não se lembrava de ter sido chamado de qualquer outra coisa; não sabia se sequer possuía um nome. Então, era ‘lixinho’. Um lixinho que nunca havia entendido o que fazia ali, porque aquelas pessoas o mantinham lá, porque era tratado de forma diferente dos outros. Mas sabia que aquela não era a sua família. Eram apenas estranhos, e ele, um lixinho que nunca havia sido tratado de outra forma. Ou, ao menos, que ele pudesse se lembrar.

Abriu os olhos castanhos e observou o homem abrir uma garrafa de um liquido de cheiro forte e entornando-a garganta abaixo, bebendo até a metade em alguns goles. Era uma cena que se repetia quase todas as manhãs. Ele suspirou pesadamente, enxugando a boca com a manga do casaco, e mais passos podiam ser ouvidos nas escadas. Uma mulher aparentemente da idade daquele homem, sua mulher, entrou na cozinha e dirigiu-se diretamente para uma cesta com alguns pedaços de pão, levando-a a mesa. Ela nem sequer olhou para ele, nem trocou palavras com seu marido – tinha o semblante aborrecido, como se algo não a agradasse. Lixinho já havia concluído que o problema era ele mesmo, e continuava quieto em seu canto até que lhe mandassem fazer algo. Dirigiu o olhar para o chão, enquanto ouvia o casal finalmente conversando em cochichos. Conversavam sobre como a vida andava difícil. Conversavam sobre como todos estavam esperando algo melhor naqueles anos, sobre o que a guerra e a revolução haviam feito com as pessoas, com o governo, com o exército. Aquele homem era parte do exército. As armas na casa e os uniformes surrados deixavam isso claro, assim como algumas visitas que costumavam aparecer de vez em quando e que tinham um prazer estranho em ver o Lixinho sentado entre os panos rasgados, com os cabelos desarrumados e as roupas encardidas.

E então o assunto mudava repentinamente quando chegava na questão do dinheiro – a mulher perguntava porque mantinham aquela ‘coisa’ na casa, se era apenas um aborrecimento. Porque tinham que alimentá-lo, porque ele ocupava espaço na casa, porque ela tinha que acordar todo dia para vê-lo no canto da cozinha como um animal de estimação que servia para muito pouco. E Lixinho, por sua vez, fingia não ouvir. Tentava não ouvir. Mas às vezes, era inevitável. Apenas insultá-lo diretamente e maltratá-lo não era o suficiente; sempre pareciam precisar conversar sobre isso na sua frente enquanto fingiam que ele não entendia. Ele soltou apenas um suspiro baixinho.
-Ei.

Ele levantou a cabeça, pensando que tinha sido ouvido. Seu suspiro poderia resultar em coisas bastante desagradáveis. Mas a mulher a sua frente apenas estendia um balde quase do tamanho de Lixinho.
-Vai buscar água no poço. E vê se não derruba tudo.
Ele balançou a cabeça afirmativamente, e, enrolado em seu manto de trapos, pego a alça do balde com as mãos miúdas levantadas até o pescoço. A passos lentos, foi até a porta – e a mulher havia sido gentil o suficiente para abri-la para ele – e saiu, até o poço, debruçando-se sobre a pedra do poço para encher o balde. Essa era a parte fácil; no entanto, ao tentar levantar o balde cheio d’água, acabou caindo para trás com o peso e derrubando tudo não apenas sobre a neve, mas sobre seu rosto e os cabelos cinzentos. Apertou os olhos, abraçado ao balde, soltando um choramingo baixinho. Devagar, levantou-se novamente para uma segunda tentativa – e, ao olhar sobre o ombro jurou ver aquele homem sorrindo de maneira maliciosa, como se a falha e o sofrimento de Lixinho o divertisse. Sentiu-se humilhado – mas isso não era novidade alguma. Quando estava pronto para tentar levantar o balde cheio mais uma vez, ouviu uma voz atrás de si. Aquela voz que conseguia confortá-lo mesmo em sua situação, aquela voz que era gentil com ele, que não o humilhava.
-Eu ajudo!

A voz aproximou-se por trás e segurou o balde pela alça, ajudando-o a levantar. O pequenino levantou o olhar para uma garota mais velha que ele, em seus oito anos, com cabelos castanhos lisos e desarrumados e o rosto sardento. Ela sorriu pra ele, segurando o balde com os bracinhos finos, mas ainda com mais força que os dele, e ajudou-o a levar para casa não obstante o olhar de desaprovação do homem. Ela não ligava.

Aquela garota era a única que não tratava Lixinho mal naquela casa. Era a única que o ajudava, e, de vez em quando, lhe deixava usar fogo para aquecer a água ou lhe dava uma fatia de pão a mais para comer; ou ainda, que lhe emprestava um cobertor mais quente nas piores noites de inverno quando neve entrava pela fresta da porta. E era a única de quem ele gostava. Juntos, conseguiram entrar com o balde cheio, e colocá-lo frente a mulher. Ela olhou-os de maneira fria e, com um suspiro raivoso, pegou o balde e colocou a água numa panela, para esquentar. Mais uma vez, a garota sorriu para Lixinho e colocou a mão sobre sua cabeçinha, afagando-lhe a cheia cabeleira cinzenta.

-Irina. – disse a severa voz do homem, aproximando-se da garota. – O que foi que nós lhe falamos sobre se aproximar dessa coisa…?
A garota encolheu os ombros, recolhendo a mão, olhando para baixo. Lixinho recolheu-se ao seu canto, cabisbaixo.
-Ele é tão pequeno, pai… não deviam mandar ele fazer essas coisas…
-Você não vai me dizer o que eu deveria ou não fazer. Vá lavar essa mão, esse lixo está imundo…
-… Ele não é um lixo…
Nesse momento, Lixinho levantou a cabeça, sentindo uma pontinha de felicidade. Que não durou muito. O homem agarrou o braço da filha, apertando-o, e rangeu os dentes.
-Não me contrarie. Eu mandei você lavar as mãos.
Apertando os olhos, ela apenas concordou com a cabeça, desvencilhando-se e saindo até o poço. A mulher não falou uma palavra. Lixinho, muito menos. E, assim que a garota virou as costas, o homem seguiu em sua direção e golpeou-o no rosto com a ponta da bota – não queria tocar em Lixinho antes do café da manhã.

-Não vai ficar mal-acostumado.
O pequeno nada respondeu. Seu rosto doía. Doía muito. Segurando os soluços na garganta e as lágrimas nos olhos, ele fez que sim para o homem e encolheu-se entre seus panos, escondendo o rosto. Mantinha a pequena mão sobre onde o golpe o havia atingido, esfregando de leve, esperando que a dor passasse. Enxugava as lágrimas nos panos sujos, junto do nariz. Soluçava baixo, abafando nos panos, e abria a boca para chorar. Mas não poderia fazer som algum. Era um choro silencioso, que ninguém deveria ouvir. Ele devia, sempre, chorar sozinho, e nunca ser confortado.

Quando Irina entrou novamente, seu pai a puxou diretamente para a mesa, sem deixar que ela se aproximasse do pequeno. Ele podia, de vez em quando, sentir o olhar dela sobre si. Mas não iria levantar a cabeça até que as lágrimas parassem. Ele sabia que, como toda a manhã, Irina iria esconder um pedaço de pão em seu vestido e assim que ficasse sozinha na cozinha, deixá-lo-ia ao seu lado; ele sabia que teria de fazer mais alguma coisa impossível no decorrer do dia, e provavelmente apanharia de novo. E continuaria quieto, até Irina dar-lhe algo mais para comer quando escurecesse. Mas a sua maior certeza era que não haveria quem pudesse confortá-lo quando chorasse, quando sentisse dor, não enquanto aquele homem estivesse ali.

Ele devia sempre chorar sozinho.

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Blog novo para coisas antigas!

Oes, povo! ^^

Pois é, mal escrevo direito os capítulos de Gunpowder com alguma frequência, e venho aqui e abro um blog novo pro mesmo tema. Não, juro que não é DDA! XD

O que acontece é que Gunpowder não é escrito de forma linear, e sempre acontecem algumas coisinhas que precisam que um nó seja dado aqui e ali, uma revisão, alguma coisa no plot que muda pra dar mais sentido, esse tipo de coisa que acontece quando uma pessoa que está longe de ser escritora resolve botar um projeto assim pra frente. :3

E nisso surgem não apenas capítulos que ainda vão demorar para serem postados por causa de muita coisa que ainda tem que acontecer antes deles, mas também textos que não necessariamente farão parte da história, mas são, pelo menos pra mim, bastante importantes no que diz respeito aos personagens em si. Coisas como infância, adolescência, pedaços que não se encaixam na história propriamente dita… e que mesmo assim são parte importante na formação dos conceitos de cada um deles, cada personagem que tem um lugarzinho especial no coração na autora e, espero, no de alguém aí que acessa o blog. ^^

E foi assim que surgiu o GR-Vergangenheit. Esse vai ser um espaço pra postar esses capítulos e textos extras sem muito compromisso com o plot principal ou com a linearidade. E acreditem, tem muita, mas muita coisa extra que veio surgindo com o tempo de uma inspiração aqui, uma epifania ali, um tempinho para abrir o word e escrever… Se bobear, quase tanto texto quanto a história principal! XD

Além disso, esse blog ainda vai dar mais espaço pra personagens que não aparecem muito na história, mas que ainda assim são muito queridos e renderam várias páginas. :3

Espero que esse seja um jeito de ir movimentando mais esse projeto e como sempre, muito, mas muito obrigada a todo mundo que vem acessando o blog principal de GR! ♥

Até logo pois não deve demorar pra esse lugarzinho começar a receber seus primeiros hóspedes! >u<

~Anna